APRESENTAÇÃO

Em 1993, o Departamento de Assuntos Educacionais da OEA lançou dois importantes trabalhos sobre educação ambiental: o livro La educación ambiental se enraiza en el continente, de Marco A. Encalada, e o Número (Especial) 115 da revista La Educación, cujos artigos, na sua maioria em língua inglesa, se dedicam a este tema. Com a publicação do presente estudo, o DAE retoma o assunto em outro dos idiomas oficiais da OEA, o Português, tendo para tanto convidado o Dr. José Carlos Mello, cuja experiência como professor, pesquisador e administrador lhe proporciona condições privilegiadas para o desempenho da missão.

José Carlos Mello, Engenheiro Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, realizou seus estudos de pós-graduação (Mestrado e Doutorado) em Engenharia da Produção na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi professor desta e da Universidade Federal de Santa Catarina. Entre suas diversas publicações destacam-se os livros Planejamento dos Transportes (McGraw Hill, 1975), Planejamento dos Transportes Urbanos (Campus, 1982) e Transportes e Desenvolvimento (EBTU, 1984).

Mello exerceu no Governo do Distrito Federal (Brasília) os cargos de Secretário de Estado de Viação e Obras e de Presidente dos Conselhos de Administração da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (NOVACAP) e da Companhia Imobiliária de Brasília (TERRACAP). Foi ainda Secretário de Governo do Distrito Federal, Chefe do Departamento de Planejamento e de Projetos da Empresa Brasileira dos Transportes Urbanos e Secretário-Geral do Ministério do Interior. Nessa última função teve um marcante papel no que se refere à formulação e implementação de políticas ambientais. Tendo em conta o seu currículo, ao mesmo tempo tão amplo e tão coerente no tocante ao tema que nos ocupa, assim como seus atuais interesses profissionais como consultor, certamente não lhe foi difícil, ainda que em prazo curtíssimo, sintetizar uma enorme quantidade de dados e informações referentes a desenvolvimento sustentável, urbanização acelerada, industrialização tardia, fontes alternativas de energia, transportes e clima, a fim de relacioná-los com o processo educacional.

Além das importantes reflexões sobre o processo de industrialização nos países americanos, o livro tece relevantes comentários sobre os problemas enfrentados por países europeus, africanos e asiáticos em seus esforços de modernização. Cumpre, sobretudo, enfatizar sua mensagem central: de todas as estratégias para alcançar um desenvolvimento equilibrado, que explore os recursos naturais sem lesar os interesses de futuras gerações, a de mais seguro e rápido retorno é a educação ambiental. É ela que confere prioridade ao desenvolvimento sustentável, que desperta a consciência dos políticos, administradores e cidadãos em geral para a necessidade de contabilizar os custos ambientais nos projetos públicos e privados e que justifica os sacrifícios de hoje em função de um razoável porvir.

Ao comparar os requisitos de prazo e de recursos financeiros concernentes ao aprimoramento tecnológico com as exigências da educação ambiental no seu sentido mais amplo, o presente estudo se inclina a favorecer as vantagens e benefícios oferecidos por esta última. Evitando, porém, restringir as opções estratégicas a esses dois pólos, discute várias medidas de ordem política, econômica e legal, cuja adoção poderá contribuir para minorar os problemas resultantes da pobreza, ou dos desequilíbrios característicos dos processos de mudança não planejada.

Enquanto os avanços da ciência não permitam, por exemplo, a total substituição de fontes energéticas tradicionais por alternativas econômicas não contaminantes, medidas caras, como a eletrificação dos transportes de cargas ou de passageiros, e relativamente baratas, como a substituição do carro particular por ônibus ou outros coletivos que trafeguem em vias de circulação preferencial, poderão concorrer para reduzir o consumo de combustíveis fósseis. Os problemas econômicos decorrentes da execução de tais medidas constituem, provavelmente, desafio menor que as alterações de hábitos e costumes a serem ditadas por uma nova mentalidade conservacionista e comprometida com o futuro das seguintes gerações.

O próprio conceito de desenvolvimento sustentável é acima de tudo consequência de uma nova cosmovisão, que pressupõe solidariedade ante a globalização dos problemas da economia moderna. Seu enunciado implica uma revisão profunda dos valores que têm pautado a busca do conforto, da riqueza material e de status, e racionalizado a paixão pelo superficial e o amor ao supérfluo. Qualquer que seja a atividade econômica —extrativismo na floresta tropical, irrigação de áreas semi-áridas ou implantação de uma indústria cimenteira— considerações de sobrevivência farão parte dos cálculos que precedem a implantação de seus projetos, desde que o modelo de crescimento se baseie no respeito aos ecossistemas e na resistência à degradação ambiental.

A tarefa educacional do planejador, do administrador e do político se confunde, por conseguinte, com os afazeres do professor, do pesquisador e do mestre. Todos precisam do imediato, sem poder, entretanto, relegar a preocupação com os recursos e modelos de conduta a serem herdados pelas gerações futuras. Esta sadia e sustentável preocupação permeia, de forma iniludível, os vários tópicos que a seguir se expõem.

Getúlio P. Carvalho