PREFÁCIO

As complexas relações do homem com o meio ambiente são entremeadas de paixão, amor, ódio e desprezo, um conjunto desordenado de sentimentos, que nem sempre permite estabelecer uma linha coerente nos liames que unem o ser ao seu habitat.

A freqüente falta de lógica neste relacionamento desnorteia todo aquele que queira estabelecer cartesianamente um método de estudo, um processo de análise capaz de abranger todas as nuances envolvidas naquelas relações. O comportamento humano frente aos elementos naturais essenciais à vida é ilógico desde pequenos atos, como o de colocar o lixo junto à casa e depois conviver com o mau cheiro e as moscas, até grandes desatinos, como promover explosões atômicas.

No momento em que escrevo este prefácio, ocorrem no mundo 34 conflitos armados, alguns tão rotineiramente descritos que já anestesiaram os nossos sentimentos. São apresentados nos noticiários de televisão como algo tão banal como uma quermesse de igreja ou alguma competição esportiva.

A banalização da tragédia, talvez pela freqüência com que se apresenta, faz parte do cotidiano dos seres ditos civilizados. Se as guerras pouco emocionam, que falar das agressões ao meio ambiente?

A Terra é o único ponto de união de todos os homens; nada mais promove a convergência dos habitantes do globo. Mesmo esta situação ímpar, de interesse comum, não evita os comportamentos egoístas, as acusações aos outros como forma de fugir à responsabilidade, a ausência de soluções conjuntas e globais.

A falta de solidariedade torna a Terra vulnerável a todo tipo de ataque. A extinção de espécies, o esgotamento de recursos naturais, a destruição de florestas, tudo passa como se ocorresse noutro planeta, noutra galáxia distante de onde vivemos.

Lentamente os problemas ambientais vão sendo divulgados, atraindo, pouco a pouco, a atenção das pessoas. O grande número de tratados e acordos celebrados nos últimos anos demonstra o aumento de interesse nos assuntos relacionados ao meio ambiente.

As soluções para os problemas que afetam a Terra não podem ser adiadas, sob pena de chegarem tarde demais, como ocorreu com as regiões desertificadas pela ação do homem, onde a água se tornou escassa, ou com a enorme quantidade de florestas que já desapareceram.

O presente trabalho procura alertar para a existência dessas agressões ao meio ambiente e apontar algumas alternativas para reduzi-las.

De um modo geral, o diagnóstico ambiental tem sido apresentado de maneira exaustiva. O que é raro é a indicação de soluções. De pouco adianta uma permanente indignação com a existência de indústrias poluidoras, se nada for feito para harmonizá-las com o meio ambiente; ou com a destruição das árvores de uma floresta, sem que se elabore um plano que possibilite a sua preservação.

O homem é parte integrante da natureza e precisa de seus recursos para viver. Sem o homem, nada teria sentido. Nenhum plano de preservação ambiental pode se abstrair deste fato, sob pena de não surtir o efeito desejado.

Este trabalho apresenta alguns dos principais conflitos existentes neste essencial e difícil convívio do homem com a natureza que o cerca: com a desenfreada urbanização, iniciada na revolução industrial e que promove a progressiva degradação das cidades; com os desequilíbrios climáticos, subprodutos recentes do uso abusivo de alguns insumos; com o uso inadequado dos ecossistemas florestais e marítimos; e assim por diante.

Dentre os rumos sugeridos estão o aperfeiçoamento tecnológico como forma de evitar o desperdício, o emprego das matérias-primas ambientalmente aceitáveis e a educação ambiental.

O aprimoramento de tecnologias exige tempo e grandes somas de investimentos. Seus resultados, na maioria das vezes, surgem ao fim de um longo prazo. A educação ambiental, ao contrário, é um projeto barato e pode surtir efeito a curto prazo.

A educação ambiental pode seguir duas linhas básicas: ser formal, quando ensinada nas escolas, e informal, quando se destina a amplos setores da população que já passaram pelos bancos escolares ou que por lá jamais passaram.

A educação formal deve ser voltada à preparação das novas gerações, deve ser abrangente e sistemática. A informal deve utilizar todos os meios e processos informativos para atingir o maior número possível de pessoas, desde os que tomam decisões até o pequeno agricultor que precisa conhecer boas técnicas de plantio.

No primeiro caso, a educação ambiental pode fazer parte dos currículos escolares em diversos níveis ou de cursos de especialização em conhecimentos ambientais. No caso da ampla divulgação das relações de causa e efeito que ocorrem entre as atividades humanas e o meio ambiente, a gama de alternativas é enorme, indo desde o uso dos meios de comunicação até a promoção de cursos rápidos, de linguagem acessível, que podem ser ministrados em nível comunitário.

A velocidade com que alguns problemas ambientais se desdobram exige a adoção de ambas as alternativas. Não é possível esperar a formação de uma nova geração para enfrentar as questões ambientais, como não é possível que muitos governantes continuem a excluir as prioridades ambientais de seus programas de trabalho.

A pretensão maior deste trabalho é divulgar as complexas relações dominantes na questão ambiental e recomendar a educação como ação prioritária, independentemente da adoção de alternativas mais dispendiosas, cujos resultados se alcançam a mais longo prazo. Espero atingir o objetivo proposto, contribuindo para que mais pessoas se familiarizem com as questões ambientais e sintam o muito que podem fazer para elevar a qualidade de vida neste planeta.

José Carlos Mello, Brasília, junho de 1994